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domingo, 10 de março de 2013

em busca da canção


Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.

Mãos de semeador afeitas 
à sementeira do trabalho.
Minhas mãos raízes 
procurando a terra.


(trechos da poesia de Cora Coralina)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, de Cora Coralina





fonte: passeiweb.com




A imagem de Cora Coralina, como escritora, está associada, sobretudo, aos seus livros de poesia, notadamente a Poemas dos Becos de Goiás e

Estórias mais, primeiro livro da autora, publicado em 1965, quando Cora tinha 76 anos.

Nesses poemas, a autora quebra a fusão lírica entre o eu e o mundo para contar estórias que viveu, observou, aprendeu de ouvido, estórias que ela comunica não com a impessoalidade do gênero narrativo, mas impregnadas com a sua substância mais íntima, vez que as faz antes "transitar pelo coração vidente".

No livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, tempo, geografia e memória compõem o tecido textual, numa delicada, amorosa e singela entrega poética. O eu-poético funde-se à sua terra, alimentando-se de suas raízes e das suas histórias. Os versos, marcados pelo cotidiano, permitem que as emoções aflorem a partir de objetos e de cenas familiares. Os muros da cidade são prisões nas quais mal se contém um eu-lírico angustiado por libertar-se.

Existe na obra a presença de confessionalismo e memorialismo; há o recurso anafórico e uma relação estreita entre prosa e poesia. Nota-se também uma insistência em descrever a ação do tempo sobre os rios, sobrados e pessoas.

A estreita relação entre a prosa e a poesia, a própria autora nos diz: 

Versos... não
poesia...
Um modo diferente de contar velhas histórias


Calmamente, gestos e coisas simples vão sendo transformados em poesia. 

Na primeira página do livro, a poeta revela as motivações da sua escrita “ao leitor”:

AO LEITOR


Alguém deve rever, escrever e assinar os autos do Passado

antes que o Tempo passe tudo a raso.

É o que procuro fazer, para a geração nova, sempre
atenta e enlevada nas estórias, lendas, tradições, sociologia
e folclore de nossa terra.
Para a gente moça, pois, escrevi este livro de estórias.
Sei que serei lida e entendida. 



Na página seguinte, faz uma "ressalva":



RESSALVA



Este livro foi escrito 

por uma mulher 

que no tarde da Vida 
recria e poetiza sua própria 
Vida. 

Este livro 
foi escrito por uma mulher 
que fez a escalada da 
Montanha da Vida 
removendo pedras 
e plantando flores.

Este livro:
Versos… Não
Poesia… Não
um modo diferente de contar velhas estórias.



A memória é o fio que Cora Coralina utiliza para esboçar o plano do livro: a poeta acredita na memória capaz de recuperar o passado coletivo, mas reconhece que essa tarefa é desempenhada a partir de uma perspectiva particular: a memória da mulher, da mulher velha, da mulher que escreve para "recriar e poetizar sua própria vida".



"Presidiários", também de veio rememorativo, de feição doméstica, é a primeira parte de Poemas dos becos de Goiás e estórias mais



Já a segunda parte é dedicada ao aspecto social que ela observava e desejava retratar, através de poemas para lavadeiras, lavradores, mulheres da vida, crianças abandonadas e presidiários, a quem deseja levar palavras de amor e compreensão. Cora Coralina canta a beleza das lavadeiras e trabalhadoras comuns, como em "Estas mãos", poema a seguir, em que a poeta procede à estetização das mãos de modo que essas, profundamente identificadas com a matéria do trabalho, vão assumindo os atributos do ofício:



Olha para estas mãos 

de mulher roceira, 

esforçadas mãos cavouqueiras.

Pesadas, de falanges curtas,
sem trato e sem carinho.
Ossudas e grosseiras.

Mãos que jamais calçaram luvas. 
Nunca para elas o brilho dos anéis.
Minha pequenina aliança.
Um dia o chamado heróico emocionante: 
– Dei Ouro para o Bem de São Paulo.

Mãos que varreram e cozinharam.
Lavaram e estenderam
roupas nos varais.
Pouparam e remendaram.
Mãos domésticas e remendonas.

Íntimas da economia,
do arroz e do feijão 
da sua casa. 
Do tacho de cobre.
Da panela de barro.
Da acha de lenha. 
Da cinza da fornalha. 
Que encestavam o velho barreleiro 
e faziam sabão. 

Minhas mãos doceiras... 
Jamais ociosas.
Fecundas, imensas e ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar, ajudar, 
unir e abençoar. 

Mãos de semeador afeitas 
à sementeira do trabalho.
Minhas mãos raízes 
procurando a terra.

Semeando sempre.
Jamais para elas 
os júbilos da colheita.

Mãos tenazes e obtusas, 
feridas na remoção de pedras e tropeços, 
quebrando as arestas da vida.
Mãos alavancas 
na escava de construções inconclusas.

Mãos pequenas e curtas de mulher 
que nunca encontrou nada na vida.
Caminheira de uma longa estrada.
Sempre a caminhar. 
Sozinha a procurar,
o ângulo perdido, a pedra rejeitada. 



ESTÓRIAS DO APARELHO AZUL



Minha bisavó - que Deus a tenha em bom lugar

inspirada no passado sempre tinha o que contar.

Velhas tradições. Casos de assombração.
Costumes antigos. Usanças de outros tempos Cenas da
escravidão.
Cronologia superada
onde havia banguês.
Mucamas e cadeirinhas.
Rodas e teares. Ouro em profusão,
posto a secar em couro de boi.
Crioulinho vigiando de vara na mão
pra galinha não ciscar.
Romanceiro. Estórias avoengas...
Por sinal que uma delas embalou minha infância.
Era a estória de um aparelho de jantar?


domingo, 8 de julho de 2012

UM POUCO DE CORA

Pra começar...

Moeda de Ouro – Um olhar sobre Cora Coralina / Maria Esther Torinho

CORA CORALINA / BIOGRAFIA E POEMAS


ORAÇÃO DO MILHO




Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.
Meu gão, perdido por acaso, nasce e cresce na terra descuidada. 
Ponho folhas e haste e se me ajudares Senhor, mesmo planta de acaso, solitária, dou espigas e devolvo em muitos grãos, o grão perdido inicial, salvo por milagre, que a terra fecundou.
Sou a planta primária da lavoura.
Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo. E de mim, não se faz o pão alvo, universal.
O Justo não me consagrou Pão da Vida, nem lugar me foi dado nos altares.
Sou apénas o alimento forte e substancial dos que trabalham a terra, onde não vinga o trigo nobre.
Sou de origem obscura e de ascendência pobre. Alimento de rústicos e animais do jugo.
Fui o angú pesado e constante do escravo na exaustão do eito.
Sou a broa grosseira e modesta do pequeno sitiante. Sou a farinha econômica do proletário.
Sou a polenta do imigrante e a miga dos que começam a vida em terra estranha.
Sou apénas a fartura generosa e despreocupada dos paiois.
Sou o cocho abastecido donde rumina o gado
Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece.
Sou o carcarejo alegre das poedeiras à volta dos seus ninhos.
Sou a pobreza vegetal, agradecida a Vós, Senhor, que me fizeste necessária e humilde
SOU O MILHO

sábado, 7 de julho de 2012

Paisagens...


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
(Cora Coralina)