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domingo, 18 de agosto de 2013

A origem de CAÇADA

  A experiência com a manifestação "A Caçada da Rainha"que vivenciamos em Colinas do Sul em julho de 2012, mais tarde expandiria nossos olhares, fazendo com que deparássemos com novas descobertas, tanto sobre nosso repertório corporal como em campos mais subjetivos.



        
   Mais tarde viríamos a tratar o projeto 'Paisagens Corporais' como simplesmente- e complexamente - de "Caçada". Esse nome não apenas intitulou a obra cênico-musical com exposição de fotos e videoinstalação do projeto, como também significou toda essa busca da essencialidade, busca individual e subjetiva de cada 'um' artista pesquisador participante e a busca coletiva em aprimorar o que desse projeto começou a brotar.

A Pesquisa de campo

          Com o grupo de músicos Sertão, a fotógrafa Layza Vasconcelos e a artista plástica Anna Behatriz, durante 12 dias de julho de 2012, estivemos juntos nas cidades de Colinas do Sul e Cavalcante. Lá pisamos juntos e ouvimos as pisadas de seus foliões, seus cantos, danças, comidas e festejos. Mesmo rodeada e envolta dos ruídos e sujeiras comuns das urbes, conseguimos, cada um à sua maneira singular, absorver aquilo que nos parecia mais essencial. Não tínhamos a intenção de reproduzir o que assistíamos e sim a de deixar que tal experiênciaprovinda do contato e observação nos despertasse memórias e histórias vividas pessoalmente por cada um. 

Cada artista tinha total autonomia para registrar suas impressõesde forma muito autoral. Com isso, reunimos um material riquíssimo de pesquisa, entre depoimentos, registros fotográficos, sonoros e audiovisuais, além dos registros sinestésicos, feitos no corpo de cada artista participante, a partir de sua experiência individual durante essa etapa da pesquisa. Acreditamos que este registro corporal individual da experiência vivenciada em campo tenha sido o mais importante de todos.  A partir destas impressões individuais, o processo criativo transbordou e irrigou todas as etapas subsequentes do projeto Paisagens Corporais. 

domingo, 14 de abril de 2013

Imagens Poéticas anteriores à pesquisa de campo em Paisagens Corporais


No início do processo de pesquisa de Paisagens Corporais, nos chamava muita a atenção o fato do cerrado ser o berço da águas do país. Como se lá no coração rachado pela seca, jorrassem águas azuis que se esparramavam pelo Brasil  a fora. 

Esta imagem do cerrado como berço das águas nos fez entrar em uma peregrinação interna, passando por nossas partes secas e áridas, em busca de nossas nascentes. 

No primeiro semestre de pesquisa - jan a jun de 2012- a observação do ambiente natural foi de fundamental importância para a tônica do trabalho. 

Três imagens ficaram muito presentes:

· os ipês – que no auge da agonia da seca, choram flores;

· a ecdise e o canto das cigarras – o abandono das velhas estruturas e o canto eufórico em busca de seus pares, anunciando a chuva;

· a revoada das aleluias  - que também saem da terra, aladas e frenéticas, em busca de seu par.

Aqui em Goiânia, quando vemos um ipê florido, aprendemos a ver beleza nas coisas áridas. E quando ouvimos uma cigarra, ou quando presenciamos uma revoada de aleluias, bate um alívio: a chuva está chegando... Aleluia!! Uma mistura de fé na vida com uma saudade... No meu caso, saudade de meus entes queridos que estão mais distantes... Seria a busca pelo meu par?

As três imagens tinham algo em comum, que nos era precioso enquanto imagem poética: uma forte relação com a terra e busca dos céus, a sublimação.

Os ipês contavam da importância dos tempos áridos, as cigarras e aleluias cantavam os segredos da esperança e da fé. 

Para nós, tais imagens eram metáfora da peregrinação humana, em busca do essencial, em busca do sagrado. Era nossa caçada começando a surgir...

E no umbigo dessa busca, desta caça, águas jorravam e emoções transbordavam.




Assim seguimos a pesquisa, adentrando no Cerrado de Goiás, caçando nossas essências e nossas emoções mais preciosas.

E fomos parar em Colinas do Sul, para caçar a Rainha e aguçar nossa fé nas coisas simples, e depois seguimos para a comunidade Kalunga do engenho 2, em busca da força Kalunga e das águas de Santa Bárbara.




domingo, 24 de fevereiro de 2013

SOBRE PESQUISA DE CAMPO

A pesquisa de campo em ERICA:

Durante a pesquisa de campo, interesse pelo cuidado com que as mulheres preparavam todos os momentos para a Manifestação da Caçada. Interesse pelo fato da palavra Rosário estar relacionado com as pétalas de rosa (flor) que as mulheres utilizavam para  contar/cantar as rezas do terço. Interesse esse que gerou a presença no trabalho de um momento relacionado ao sagrado, tendo na figura feminina o agente responsável por essa construção. Assim fomos buscar no trabalho com o dojo onde esse sagrado estaria no corpo de Érica.

A pesquisa de campo em RODRIGO:

Identificação com uma trama desenhada por raízes de uma árvore. Vontade de ser/ estar misturado a esse meio, a essas raizes, a esse estado. A imagem do adubo aparece relacionado com a vivacidade dessa trama desenhada por essas raizes. Afetividade com relação aos catireiros na festa. Investigação desse estado/vontade de se misturar com a solitude.


por Maria Fernanda, orientadora de Dojo.

sábado, 4 de agosto de 2012

Força Kalunga

... estava revendo algumas fotos de nossa viagem, revivendo emoções, revisitando paisagens...

não pude deixar de me emocionar com esta foto de Sirilo, grande "Prefeito" dos Kalungas, grande guerreiro.

Sua presença forte e serena nos deixa contemplativos...


quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Caçada da Rainha 2012 - O PRIMEIRO POUSO


Nosso primeiro pouso

12 de julho de 2012

Enfim, chegamos em Colinas do Sul.
O sol já se escondia, deixando seu rastro multicores.
A ansiedade espantava o cansaço das 8 horas de viagem.
O silêncio nas ruas do interior sempre me convidam a viajar ao meu próprio interior. A ausência do zum zum zum da cidade grande amplifica meus sentidos. O ar seco e empoeirado tem cheiro de antigamente, quando eu visitava meus parentes no interior de São Paulo, acompanhada de minha tia avó Pierina...

Olho para meus filhos e fico feliz por eles estarem vivenciando esses momentos comigo. Fecho os olhos em prece e agradeço...

O que estamos esperando??  Vam'bora pro pouso!!

Nas paredes dos estabelecimentos comerciais da cidade estavam pregados o cartaz da Caçada da Rainha. Curioso:


então fomos...

Seguimos então com a van novamente, por mais 20 km adentro "da Colina", em estrada de chão.

Engraçado isso : estrada de chão...

Parece que as outras estradas com o chão escondido pelo asfalto tiveram sua ancestralidade escondida também...

Seguimos saculejando Colina a dentro...
Vam'bora pro pouso!!

E então chegamos...
A pegunta de todos, ainda dentro da van:
"Cadê Zè Nilo??"
" Ali, Ali!! De chapéu! Já vi!"

E enfim: ZÉ NILO !!!





  
Nem acreditei:
Estávamos num pouso. Estávamos com Zé Nilo. Pronto!!

Zé Nilo, depois de abraçar o Sertão*, pegou o caçula da viagem - Lui - nos braços e levou a todos pra cozinha, para se servirem e estarem a vontade.







Lá, cozinheiras feiticeiras garantiam o combustível da festa. E enfeitiçavam nossos sentidos com poções mágicas de guariroba, arroz, feijão, frango caipira, paçoca, mandioca... O cheiro da comida fazia emudecer. As panelas no fogão caipira eram um deleite aos olhos e ao paladar. Zé Nilo ficou com o grupo, e não saiu de perto até que todos estivessem bem alimentados e satisfeitos. Da mesma forma o fez a dona da casa (nome em breve).






As crianças corriam soltas em volta da fogueira.

A catira já ia começar. Eu só tinha a agradecer...

*Sertão: como Zé Nilo carinhosamente chama Olavo Telles, do Grupo Sertão.







A Caçada da Rainha - APRENDENDO A SER GENTE


“Guimarães Rosa foi quem, melhor do que ninguém, soube transcriar a riqueza cultural desses povos, ao afirmar que os gerais são ‘uma caixa d'água' e, com isso, mais do que os cientistas, iluminou a leitura de nossa geografia aos nos fazer ver que os nossos rios nascem nos cerrados – o São Francisco, o Jaguaribe, o Parnaíba, o Tocantins, o Araguaia, o Xingu, o Madeira, os formadores do Paraguai (o Pantanal), o Paranaíba, o Grande, o Rio Doce”.

O trecho acima é de Carlos Walter Porto-Gonçalves, da Universidade Federal Fluminense, em sua Carta aberta à invisibilidade do Cerrado na política ambiental (LINK ao lado).

Na carta Carlos Walter nos atenta ao descaso das políticas ambientais em nosso país, incluindo à invisibilidade do Cerrado.

Eu mesmo, antes de chegar em Goiás, não sabia de cerrado... Tinha uma vaga idéia de vegetação rasteira, com baixa diversidade. E cheguei aqui sem saber diferenciar uma árvore comum de um pé de manga...

Acho que por isso me veio o "Paisagens Corporais"...

Aqui, nesse Cerrado azul e laranja, aprendi a ver. A ver e a sentir o meu redor. Minha pele sente o seco e o molhado, meus olhos acompanham os ciclos dos "pé-de-tudo-quanto-é-coisa", minh'alma se encharca nessas águas... E os Ipês choram flores...

Aprendi a apreciar as aleluias,  e sentir a presença divina em sua busca pela ascensão...  

Me comovo com o grito da cigarra que prenuncia, com seu último fôlego, que as águas estão chegando. 

E estou buscando me inspirar nas pessoas daqui ou, como diz Olavo, estou aprendendo a ser gente. Aprendendo o sentido da generosidade.